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sexta-feira, 27 de março de 2026

QUINCO VASQUES E O ATAQUE A LAVRAS DA MANGABEIRA


Ataque a Lavras da Mangabeira – 07 de abril de 1910



Imagem gerada por IA a partir de descrição histórica.


    No dia 07 de abril de 1910, ocorreu um dos acontecimentos mais marcantes da história política do Cariri e do sul do Ceará: o ataque armado à cidade de Lavras da Mangabeira, realizado com o objetivo de derrubar do poder o Coronel Gustavo Augusto de Lima, filho da célebre Fideralina Augusto de Lima, uma das figuras mais poderosas do coronelismo nordestino.








    A família Augusto de Lima comandava um dos mais fortes núcleos de poder político dos sertões nordestinos, exercendo influência política, econômica e social sobre toda a região. O domínio político da família era tão forte que Lavras da Mangabeira se tornou um dos maiores símbolos do coronelismo no Ceará.

A marcha para Lavras


    A expedição armada que seguiu em direção a Lavras da Mangabeira foi liderada pelo destemido Joaquim Vasques Landim, mais conhecido como Quinco Vasques, que na época tinha 36 anos de idade.

Joaquim Vasques Landim - QUINCO VASQUES
Foto restaurada com uso de Inteligência Artificial 



    Ao anoitecer do dia 06 de abril de 1910, Quinco Vasques partiu do Sítio Bico da Arara, localizado na Serra de São Pedro, com destino a Lavras da Mangabeira. Ele seguia montado a cavalo à frente do grupo, acompanhado inicialmente por cerca de cinquenta homens armados.

    Durante o percurso, outros homens foram se juntando ao grupo, aumentando a tropa até chegar a aproximadamente cento e cinquenta homens, que seguiram determinados em direção à cidade. O objetivo era claro: atacar Lavras da Mangabeira e enfraquecer o poder político do coronel Gustavo Augusto de Lima.

    Quando a tropa liderada por Joaquim Vasques Landim, o Quinco Vasques, aproximou-se de Lavras da Mangabeira, em abril de 1910, o fator surpresa já não existia mais. O chefe político lavrense já havia sido avisado de que a cidade seria atacada e, por isso, tratou de organizar a defesa, reunindo homens armados e contando com o apoio da polícia.

    Mesmo sabendo que a cidade estava preparada para recebê-lo “a bacamarte”, Quinco Vasques não desistiu da investida. Instalado com seu grupo no Sítio Outeiro, nas proximidades da cidade, ele tomou uma atitude que mostra que o ataque não era apenas uma ação de violência, mas também um movimento político e estratégico: enviou bilhetes às autoridades locais.

Foram enviados dois bilhetes por intermédio de um portador, dirigidos:

Ao Coronel Gustavo Augusto de Lima, chefe político de Lavras da Mangabeira;
Ao comandante do destacamento policial da cidade.

    Nos bilhetes, Quinco Vasques comunicava sua presença nas proximidades da cidade e fazia uma espécie de intimação, pedindo que não houvesse resistência, para evitar derramamento de sangue. Era uma tentativa de rendição antes do confronto.

    Esse tipo de atitude era comum nos conflitos políticos da época. Muitas vezes, antes de ataques ou invasões, eram enviadas mensagens para dar oportunidade de rendição ou negociação, evitando combates maiores.

    Mesmo assim, a defesa da cidade não recuou. O grupo ligado à família Augusto, liderado politicamente pela poderosa Fideralina Augusto de Lima e por seu filho, o Coronel Gustavo Augusto, decidiu resistir.

Sem acordo e sem rendição, o confronto tornou-se inevitável.

    Na manhã do dia 7 de abril de 1910, por volta das primeiras horas do dia, a tropa de Quinco Vasques entrou em Lavras da Mangabeira, dando início a um dos episódios mais marcantes das lutas políticas armadas do sul do Ceará, um fato que entraria para a história como o ataque a Lavras da Mangabeira.

Imagem gerada por IA a partir de descrição histórica.


    Durante o ataque a Lavras da Mangabeira, em 7 de abril de 1910, o grupo ligado ao coronel Gustavo Augusto de Lima organizou a defesa e fez reduto na própria residência do coronel, localizada na então rua do Piripau, conhecida atualmente como rua Hilda Augusto, nas proximidades do Alto.

    Das portas e janelas do oitão da casa, os defensores atiravam contra os homens do grupo de Quinco Vasques, sustentando um intenso tiroteio que se prolongou por várias horas. Segundo registros do processo judicial da época, o combate começou pela manhã e se estendeu até a noite, havendo testemunhos que afirmam que o tiroteio durou cerca de oito horas.



    Um dos depoimentos mais importantes foi o do próprio coronel Francisco Augusto Correia Lima, que relatou que um grupo de aproximadamente doze cangaceiros aproximou-se da casa do coronel Gustavo Augusto de Lima, quebrando a porta da frente e mantendo intenso tiroteio contra a residência, com a intenção de matar o coronel.

    Enquanto parte do grupo atacava a casa, outros homens aproveitavam a confusão para quebrar móveis e saquear casas, levando tudo o que podiam. O prejuízo foi calculado em valores altos para a época, registrados em réis.

    Durante o conflito, outras casas da rua Grande também foram invadidas, com portas arrombadas “a coice de rifles e bacamartes”. Ao todo, cerca de seis casas foram saqueadas, com prejuízos estimados entre cento e cinquenta e duzentos mil réis para cada residência, valores consideráveis para o período.

    Apesar do ataque, o coronel Gustavo conseguiu resistir com o grupo de homens que havia recrutado para a defesa da cidade. O combate só terminou quando a munição dos atacantes começou a acabar e chegaram reforços policiais vindos de Icó, enviados para ajudar na defesa de Lavras da Mangabeira.

    Com a falta de munição e a aproximação das forças policiais, o grupo liderado por Vasques foi obrigado a bater em retirada, encerrando o ataque.

Integrantes do grupo de Quinco Vasques

    Documentos do processo da época registram o nome de vários integrantes do grupo que participou do ataque. Entre eles estavam:

José Lino Simões
Fenelon Carneiro Guerra
Vicente Maurício
José Terto
Manuel Mouco
Matias (sem sobrenome identificado)
Belo Fernandes, conhecido como Belinho
Pedro Calangro
João Marreca
Antão (sem sobrenome identificado)
Joaquim Gonçalves
José Cornélio
Antônio Sabino
João Mariano
José Rosa
João Paulino
Ildefonso (sem sobrenome identificado)
Joaquim Jardim
Antônio Rosa
Josino, filho de Antão
Tremeterra
Zezé

    Esses nomes aparecem em registros do processo e ajudam a identificar os participantes do ataque, sendo importantes para pesquisas históricas e genealógicas das famílias da região.


O Rescaldo do Conflito


Baixas:

Do lado de Quinco Vasques, houve vários feridos. 
Do lado do Coronel Gustavo, a baixa principal foi o subdelegado local, Possidônio Faustino da Silva, que perdeu a vida.

 Refúgio e Apoio: 

    Os homens de Quinco retiraram-se para o Sítio Calabaço, de propriedade de Joaquim Lôbo de Macêdo e Dona Maria Joquina da Cruz. Por serem parentes e compadres de Quinco, ofereceram a casa do engenho para curar os feridos e dar descanso ao batalhão, enquanto na casa grande repousava o chefe.


O Papel de Nazário Furtado Landim


A advertência: 

    O major Nazário Furtado Landim, residente em Juazeiro e também parente/compadre de Quinco Vasques, enviou uma carta (missiva) com um conselho urgente. Nazário pediu que Quinco dispensasse seus homens armados ("despeça este pessoal") e evitasse qualquer violência ou roubo. Ele alertou que a permanência de Quinco naquela situação impedia sua reabilitação perante a lei e que, caso não seguisse o conselho, o Governo tomaria medidas severas e imediatas.


A Rede de Proteção na Paraíba

Fuga Estratégica: 

    Com recomendação do Coronel José Augusto de Oliveira (o Zé Borrego) de Lavras, Quinco Vasques buscou refúgio na Paraíba, na cidade de São João do Rio do Peixe (atual Antenor Navarro), onde ficou sob a proteção do influente Padre Joaquim Cirilo de Sá (Padre Sá). O texto explica que essa proteção era baseada em laços familiares sólidos: dois irmãos de José Augusto eram casados com dois irmãos do referido padre.

Padre Joaquim Cirilo de Sá - Padre Sá
Fonte: ancestors.familysearch.org



A Captura e o Interrogatório de Quinco Vasques

    Após o cerco a Lavras, a trajetória de Quinco Vasques tomou um rumo judicial em solo paraibano, revelando a complexa teia de alianças por trás do conflito.  

Prisão na Paraíba

Captura e Soltura

    Após o malogro, Quinco Vasques foi capturado em 1º de junho no lugar Poço, na Paraíba, e detido em Sousa antes de ser recambiado para Lavras. No entanto, sua estadia na prisão foi curta. Mandões influentes da região, como Domingos Furtado e Antônio Santana, providenciaram rapidamente sua soltura.  

Interrogatório Inicial: 

    No dia 3 de junho, foi ouvido pela Justiça em Sousa. Ao ser questionado sobre suas relações, citou figuras de peso como o Padre Sá, Antônio Leite (deportado de Aurora) e a família Amador.  

Revelações sobre o Ataque

    Durante os depoimentos, Quinco detalhou como a ofensiva contra o Coronel Gustavo foi planejada:  

O Mentor: 

Segundo Vasques, foi Antônio Leite quem elaborou o plano do ataque com os demais assaltantes.  

Financiamento: 

    Ele afirmou que o próprio Antônio Leite forneceu o dinheiro necessário para a execução da "empresa" armada.  


Curiosidades e Defesa Pessoal

O interrogatório também registrou momentos curiosos que demonstram o perfil do investigado:


Conflitos em Cajazeiras: 

    Quando questionado sobre crimes naquela região, Quinco negou delitos graves, admitindo apenas ter dado "um crister de pimenta" em um homem chamado Francisco Salvino, que teria tentado tomar suas terras cerca de três anos antes.  


Recambiamento: 

    Em 13 de junho, Quinco foi transferido de volta para Lavras, onde passou a ser inquirido pelo juiz Alfredo de Oliveira.

A Motivação: Perseguição e Honra

    Quinco Vasques não aceitou o comando da investida por acaso. Ele revelou em juízo que o Coronel Gustavo Augusto Lima havia oferecido dez contos de réis por sua cabeça e contratado o cangaceiro "Sipaúba do Góis" para matá-lo. A tensão aumentou quando um suposto trabalhador, infiltrado na propriedade de Quinco, confessou ter sido enviado pelo Coronel Gustavo para assassiná-lo.  

O Objetivo Estratégico

    Diferente do que se possa pensar, o plano não era matar o Coronel Gustavo, o que poderia ser feito em uma simples emboscada de estrada. O objetivo era político:  

    Destronar o Coronel Gustavo: O grupo queria depor o coronel para que José Borrego (Zé Borrego) assumisse a chefia política de Lavras.  

    Retomada de Aurora: A queda de Gustavo em Lavras facilitaria o retorno do Coronel Antônio Leite (Totonho Leite) ao poder em Aurora, de onde havia sido expulso em 1908. 


O Conluio e o Financiamento

    O ataque foi uma operação conjunta entre os dissidentes da família Augusto e os grupos políticos de Aurora. Segundo o depoimento de Quinco Vasques:  


Mandantes: 

    Manuel Gonçalves Ferreira, Antônio Leite Teixeira Neto e Davi Saburá.  

Logística: 

Antônio Leite e Davi Saburá forneceram, cada um, um conto de réis, enquanto Manuel Gonçalves contribuiu com duas cargas de balas de rifles. 
 

Intermediário: 

Joaquim Torquato foi o responsável por entregar o dinheiro e as munições.  

Por que o ataque falhou?

    Apesar da bravura de Quinco, o cerco sucumbiu devido a falhas de planejamento:  

Exaustão: 

    Os homens chegaram fatigados após marcharem a pé em um ritmo acelerado (mais de uma légua por hora).  

Inferioridade Numérica: 

    O contingente de Quinco era inexpressivo diante da defesa preparada pelo Coronel Gustavo.  

Falta de Munição: 

    Os atacantes não tinham suprimentos suficientes para um combate prolongado.  


A Figura de Quinco Vasques


    O texto consagra Quinco como um dos homens mais destemidos do Cariri, capaz de violar o "feudo" de Dona Fideralina e dos Augustos. Além deste ataque, ele é lembrado por enfrentar os coronéis Sinhô Dantas e Isaías Arruda em Missão Velha, e por peitar os "Paulinos de Aurora" acompanhado de apenas três filhos.

Quinco Vasques ao centro com cinco seus dez filhos, cinco ao seu lado direito e cinco ao seu lado esquerdo
Fonte: arquivos da família


Um episódio do tempo do coronelismo

    Esse episódio ocorreu em uma época em que o interior nordestino vivia sob o domínio dos coronéis, grandes proprietários de terras que controlavam a política local, as eleições, a economia e muitas vezes mantinham grupos armados para defender seus interesses.

    Os conflitos políticos frequentemente se transformavam em confrontos armados, invasões de cidades e perseguições a adversários. Era o tempo em que o poder muitas vezes era garantido pela força das armas, período que ficaria conhecido posteriormente como o tempo do bacamarte.

    O ataque a Lavras da Mangabeira entrou para a história como um dos episódios mais importantes das lutas políticas armadas do Cariri e demonstra como eram intensas as disputas pelo poder na região no início do século XX.


História e memória do Cariri


    A história de personagens como Quinco Vasques e dos conflitos envolvendo as grandes famílias do Cariri faz parte da formação histórica e social da região. Esses acontecimentos ajudam a entender não apenas a política da época, mas também a formação de muitas famílias, alianças e rivalidades que marcaram a história do sul do Ceará.

    Resgatar esses fatos é preservar a memória do nosso povo e compreender melhor a história das famílias tradicionais do Cariri e dos sertões cearenses.




Winchester - 1873, mais conhecido como Rifle Papo Amarelo, modelo da arma utilizada por Quinco Vasques no Ataque a Lavras da Mangabeira.



Modelo semelhante a imagem 01 porém com o cano curto.




Rifle original utilizado por Quinco Vasques no Ataque a Lavras da Mangabeira. Qunco Vasques presenteou cada um de seus filhos com um rifle semelhante a este.





Rifle utilizado por Quinco Vasques 




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Referências
MACEDO, Joaryvar. Um Bravo Caririense. Crato: Emp. Gráfica Ltda., 1964.
PINHEIRO, Irineu. Efemérides do Cariri. Fortaleza: Imprensa Universitária, 1963.

Leitura complementar
LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto.
MACEDO, Joaryvar. O Império do Bacamarte.

Outras fontes:
Registros e imagens históricas capturadas online ou de arquivos da família.









7 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  2. LAVRAS DA MANGABEIRA
    gostaria de saber da família Taveira dos Santos, minha tataravó se chamava Rita Taveira dos Santos casada com Joaquim Cavalcante de Lacerda

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  3. E como transcorreu tal embate? Qual o resultado final?

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  4. No endereço http://cariricangaco.blogspot.com.br/2013/05/casa-do-cla-augusto-icone-da-historia-e.html lê-se que:

    "Cada recanto e cada canto da casa dos Augusto parecia nos trazer cenas irretocáveis da tradicional história lavrense tão bem delineadas pelo poeta maior Dimas Macedo em sua conferência da tarde anterior.

    E o grande Dimas Macedo nos provocava a imaginação: "Severo desta janela os homens do Coronel Gustavo rechaçaram os jagunços de Quinco Vasques na invação de Lavras no começo do século passado..." E me veio a memória um embate de Titãs; de um lado a força inegável e a valentia de um clã como o dos Augusto, do outro lado a coragem, beirando a loucura de um outro personagem emblemátcio de nosso Cariri: Quinco Vasques do Clã dos Terésios de Santa Terteza. Novamente tínhamos nas mãos a oportunidade de reviver momentos heróicos de homens e mulheres que escreveram, muitas vezes com sangue, a história do Cariri do Ceará."

    Confere? Tem detalhes a acrescentar ou corrigir?

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Certíssimo meu caro, belas palavras de nosso grande Dimas Macêdo que enriquecem ainda mais esse importante fato de nossa história. Obrigado pela contribuição!

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  5. sou da familília BATISTA gostaria de saber a historia dos Batista de lavras da mangabeira meu avô chamava se Satiro batista do sitio melancias. era agrimensor

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